Por Sidarta Yonimani – Terapeuta Corporal
Durante muito tempo, acreditou-se que os traumas existiam apenas na memória ou nas emoções. Hoje, a ciência demonstra algo mais profundo: experiências marcantes também podem modificar o funcionamento do sistema nervoso, alterar a percepção do próprio corpo e influenciar a forma como uma pessoa se relaciona consigo mesma e com o mundo.
É justamente desse encontro entre psicologia, neurociência e estudos do corpo que nasce a psicotraumatologia, uma área dedicada à compreensão dos efeitos do trauma e dos caminhos possíveis para sua integração.
Embora seus conhecimentos sejam úteis para todas as pessoas, eles têm especial importância na compreensão da saúde feminina, considerando que mulheres estão mais expostas a diferentes formas de violência ao longo da vida.
O que é psicotraumatologia?
A psicotraumatologia é o campo científico que estuda o trauma psicológico e seus impactos sobre o cérebro, o sistema nervoso, as emoções, o comportamento e o corpo.
Seu objetivo não é apenas compreender eventos traumáticos, mas investigar como essas experiências permanecem registradas no organismo e como podem ser elaboradas de forma segura.
Hoje sabemos que um trauma não depende apenas do acontecimento em si, mas também da capacidade que cada organismo possui para responder e integrar aquela experiência.
Duas pessoas podem viver situações semelhantes e apresentar consequências completamente diferentes. Isso acontece porque fatores como idade, suporte emocional, histórico de vida, vínculos afetivos e condições biológicas influenciam diretamente a resposta ao trauma.
O trauma não permanece apenas na memória
Durante muitos anos, acreditava-se que bastava falar sobre um acontecimento difícil para superá-lo.
As pesquisas atuais mostram que isso nem sempre acontece.
Experiências traumáticas podem permanecer registradas no sistema nervoso autônomo, produzindo respostas automáticas mesmo quando o perigo já passou.
Entre essas respostas encontram-se:
- tensão muscular constante;
- hipervigilância;
- ansiedade persistente;
- dificuldade para relaxar;
- alterações do sono;
- crises de pânico;
- bloqueios emocionais;
- dificuldades na intimidade;
- sensação de desconexão do próprio corpo.
Por isso, muitos tratamentos modernos passaram a incluir também abordagens corporais, exercícios de regulação fisiológica e práticas que favorecem a percepção segura do corpo.
A psicotraumatologia da mulher
Embora homens também desenvolvam traumas, diversos estudos demonstram que mulheres apresentam maior incidência de determinadas experiências potencialmente traumáticas.
Entre elas destacam-se:
- violência sexual;
- violência doméstica;
- abuso emocional;
- negligência durante a infância;
- relacionamentos abusivos;
- assédio moral ou sexual;
- violência obstétrica;
- perdas gestacionais;
- parto traumático;
- discriminação e violência de gênero.
Nem toda mulher que vivencia essas experiências desenvolverá um transtorno psicológico.
Entretanto, muitas carregam consequências silenciosas que podem afetar autoestima, confiança, sexualidade, vínculos afetivos e percepção corporal.
O corpo também aprende o medo
Quando um evento ameaça profundamente a integridade física ou emocional, o organismo ativa mecanismos automáticos de sobrevivência.
Essas respostas incluem:
- luta;
- fuga;
- congelamento;
- submissão.
Esses mecanismos são naturais e fundamentais para preservar a vida.
O problema ocorre quando o sistema nervoso permanece funcionando como se o perigo ainda estivesse presente.
Nesse caso, situações cotidianas podem desencadear respostas intensas de ansiedade, medo, irritabilidade ou desligamento emocional.
A psicotraumatologia procura compreender exatamente esse funcionamento.
Os principais pesquisadores da área
A psicotraumatologia não possui um único fundador.
Ela foi construída ao longo de mais de um século por diferentes pesquisadores.
Entre os nomes mais importantes estão:
Pierre Janet, pioneiro nos estudos sobre dissociação e memória traumática.
John Bowlby, criador da Teoria do Apego, fundamental para compreender o impacto das primeiras relações no desenvolvimento emocional.
Bessel van der Kolk, autor do livro O Corpo Guarda as Marcas, uma das principais referências mundiais sobre trauma.
Peter Levine, criador da Somatic Experiencing®, abordagem voltada à regulação do sistema nervoso.
Stephen Porges, desenvolvedor da Teoria Polivagal, que explica como o sistema nervoso influencia emoções, vínculos e sensação de segurança.
Francine Shapiro, criadora do EMDR, método amplamente utilizado no tratamento de memórias traumáticas.
Esses pesquisadores transformaram profundamente a forma como compreendemos o trauma humano.
Trauma e sistema nervoso
Uma das maiores contribuições recentes da neurociência foi demonstrar que segurança não é apenas uma ideia.
Ela é também uma experiência fisiológica.
Quando o sistema nervoso percebe segurança, torna-se possível:
- respirar melhor;
- relaxar;
- confiar;
- aprender;
- estabelecer vínculos;
- acessar emoções difíceis sem ser dominado por elas.
Quando percebe ameaça, mesmo sem perigo real, o organismo pode permanecer em estado constante de defesa.
É por isso que intervenções corporais cuidadosas podem favorecer processos de autorregulação quando realizadas dentro de critérios éticos e respeitando os limites de cada pessoa.
O papel das abordagens corporais
Nas últimas décadas, diversas linhas terapêuticas passaram a reconhecer que o corpo participa ativamente da recuperação do trauma.
Respiração consciente, percepção corporal, atenção plena, movimentos lentos, exercícios de grounding e práticas de regulação do sistema nervoso vêm sendo estudados como recursos complementares.
É importante destacar que essas abordagens não substituem tratamentos médicos ou psicoterapêuticos quando eles são necessários.
Elas podem integrar um cuidado multidisciplinar, contribuindo para ampliar a percepção corporal, favorecer a sensação de segurança e apoiar processos de autoconsciência.
A atuação do terapeuta corporal
O terapeuta corporal não realiza diagnóstico psicológico nem substitui o trabalho de psicólogos ou psiquiatras.
Sua atuação concentra-se no cuidado corporal, no acolhimento, na construção de um ambiente seguro e no desenvolvimento da percepção corporal.
Conhecimentos em psicotraumatologia ajudam esse profissional a:
- reconhecer sinais de sobrecarga do sistema nervoso;
- evitar intervenções potencialmente retraumatizantes;
- respeitar os limites fisiológicos da pessoa atendida;
- compreender a importância do consentimento contínuo;
- favorecer experiências corporais de segurança e autonomia.
Essa compreensão torna o atendimento mais responsável e sensível às necessidades individuais.
Psicotraumatologia e a saúde da mulher
Cada vez mais profissionais reconhecem que o cuidado integral da mulher envolve muito mais do que aliviar sintomas físicos.
É preciso considerar sua história, seus vínculos, suas experiências e a forma como seu corpo aprendeu a responder ao mundo.
A psicotraumatologia oferece uma lente importante para compreender essas relações sem reduzir a mulher ao trauma que viveu.
Ela amplia a possibilidade de reconhecer recursos internos, fortalecer a autonomia e favorecer processos de recuperação que respeitem o tempo e a singularidade de cada pessoa.
Considerações finais
Conhecer a psicotraumatologia não significa enxergar trauma em todas as experiências humanas.
Significa compreender que corpo e mente funcionam de forma integrada.
Quando essa integração é respeitada, o cuidado torna-se mais humano, ético e eficaz.
Para terapeutas corporais, esse conhecimento amplia a capacidade de oferecer um espaço de acolhimento, segurança e presença, sempre dentro dos limites da própria atuação profissional e, quando necessário, em parceria com psicólogos, psiquiatras e outros profissionais da saúde.
A verdadeira recuperação não consiste em apagar o passado, mas em permitir que ele deixe de comandar o presente. O corpo, que tantas vezes participou da sobrevivência, também pode participar do processo de reconstrução, desde que seja ouvido com respeito, sensibilidade e responsabilidade.
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