Poesia: Sidarta Yonimani
Eu caminho entre vozes que gritam certezas,
de um mundo que aprendeu a chamar de “verdade”
o medo vestido de razão,
e a fragilidade disfarçada de poder.
Dizem sobre mim antes que eu fale,
me explicam antes que eu exista,
me reduzem antes que eu me mova
como se meu corpo fosse tese já concluída.
Há palavras que se organizam em grupo
para negar o meu passo,
para vigiar meu gesto,
para domesticar meu silêncio.
Vejo sistemas que se alimentam de raiva,
homens ensinados a confundir dor com domínio,
a transformar insegurança em doutrina,
a chamar controle de identidade.
E há quem escreva teorias sobre o amor
sem jamais ter suportado o encontro;
quem fale de força
sem nunca ter sustentado o próprio vazio.
Mas eu também aprendi outra língua
no intervalo entre um ataque e outro:
a língua do corpo que não se rende,
da respiração que não pede licença,
da presença que não negocia existência.
Aprendi que existir inteira
é um ato que incomoda estruturas,
porque mulher que se escuta
desorganiza o roteiro do mundo.
Não respondo com o mesmo fogo
que tentam me acender por dentro;
respondo com raízes,
que não aparecem, mas sustentam.
Respondo com tempo,
esse que não se compra nem se corrige,
e com um silêncio que não é ausência,
mas maturidade de quem não se explica mais para sobreviver.
Há templos que não aceitam meu nome,
há discursos que tentam me apagar com lógica,
há dogmas que vestem moral
para esconder controle.
Mas sigo.
Não como reação,
mas como presença que insiste
em não caber no estreito.
E se me perguntam o que aprendi,
respondo sem pressa:
que nenhuma narrativa que diminui o outro
cresce sem ferida por trás;
e que toda liberdade verdadeira
começa onde o medo
perde o direito de legislar sobre o corpo.
Eu sigo.
Não contra o mundo,
mas para além dele,
onde minha existência não precisa pedir desculpas
para ser inteira.
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